BRINQUEDEIROS
Mercado, indústria e cultura do brincar — por Márcio Goldoni
A Índia não ficou mais barata. Ficou pronta.
E aí, brinquedeiros e brinquedeiras…
Na Spielwarenmesse deste ano conversei com uma empresária e fabricante indiana, Minali Agarwal (PepPlay | Índia). Foi uma excelente conversa de feira. Agora, com os números dos dois países na mesma mesa, aquela conversa lê diferente.
Dois países, o mesmo ponto de partida
Em 2017-18, a Índia comprava muito mais brinquedo de fora do que vendia: déficit de US$ 213 milhões nas categorias do setor. No ano fiscal 2025-26, fechou com superávit de US$ 152 milhões. As exportações indianas de brinquedos e jogos saíram de US$ 152,7 milhões para US$ 384,7 milhões — quase 152% de crescimento em oito anos, segundo dados do próprio governo indiano. Só a linha de brinquedos eletrônicos e não eletrônicos pulou de US$ 77 milhões para US$ 200 milhões.
Agora o nosso retrato, na mesma janela de tempo. O Anuário Abrinq 2026, com base no Comex Stat, registra: em 2018 o Brasil exportou US$ 11,4 milhões em brinquedos. Em 2025, exportou US$ 10,3 milhões. Menos. No mesmo período, a importação subiu de US$ 288 milhões para US$ 353 milhões.
Leia de novo, porque o número é pequeno e por isso passa batido. Não é que a gente cresceu pouco lá fora. É que a gente encolheu — enquanto comprava cada vez mais.
Meses atrás, escrevi nesta coluna que o brinquedo brasileiro tem três passaportes e o mundo tem duzentos. Na época deixei duas hipóteses no ar: ou produzimos só para dentro porque o mercado interno dá conta, ou nunca construímos operação exportadora à altura do que produzimos. A Índia acabou de responder qual das duas pesa mais.
O que a Índia fez não foi ficar barata
A tentação é explicar tudo por preço. Não é isso. A Índia tornou obrigatória a certificação dos brinquedos vendidos lá dentro, montou plano nacional para o setor e foi atrás de acordo comercial. Desde 15 de julho deste ano está em vigor o acordo Índia–Reino Unido, e o brinquedo indiano entra em solo britânico com tarifa zero. Com a Austrália, o acordo já existia.
Mas o detalhe mais interessante não é o acordo. É o que a associação indiana anda dizendo aos próprios fabricantes: tarifa zero, sozinha, não garante exportação nenhuma. Continua sendo preciso ter laudo de segurança internacional, classificar o produto no código certo, documentar a origem, rotular direito e cumprir prazo de entrega. Eles conquistaram a porta aberta e seguem avisando os associados de que talvez ainda não estejam prontos para atravessar.
Essa é a parte que me pegou. Não é o acordo. É a humildade operacional.
Tarifa zero não vende brinquedo nenhum. Quem vende é quem tem certificado, código e prazo.
E a nossa porta, quem abriu?
Já escrevi aqui que exportar brinquedo é difícil: certificação por destino, frete em moeda forte, escala, embalagem multilíngue, distribuição lá fora. Continua tudo verdade. Só que a Índia tinha exatamente os mesmos obstáculos e atravessou.
E a nossa porta abriu também. Em março deste ano foi sancionada a lei que cria o sistema brasileiro de apoio oficial ao crédito à exportação, com foco em micro, pequenas e médias empresas — o perfil da maior parte das nossas fábricas. Não é detalhe. É a peça que a indústria pedia há anos, e a Abrinq comemorou publicamente.
Aqui é onde a carapuça é nossa. Crédito é combustível, não motorista. Financiamento aprova quem já tem laudo, código, documento e prazo. Quem não tem nada disso não pega crédito: pega dívida. E nos polos do interior paulista, o nosso incluído, existe capacidade instalada e produto competente que nunca tirou um único documento de exportação — não por incapacidade, mas porque ninguém nunca disse que precisava.
Não é obra de um empresário sozinho. Certificação internacional custa caro para uma fábrica pequena e barato para dez fábricas juntas. Isso se chama consórcio de exportação, existe no Brasil há décadas, e é assim que qualquer polo do mundo começou.
O que a conversa em Nuremberg me deixou não foi inveja. Foi constrangimento útil. A empresária indiana com quem falei tinha catálogo, laudo e prazo na ponta da língua. Não porque seja mais esperta que nós. Porque alguém, algum dia, disse a ela que aquilo era o mínimo.
A Índia não ficou mais barata que a gente. Ficou pronta antes que a porta abrisse. A nossa abriu em março — e a pergunta que fica é simples demais para ser confortável: quem, aqui, já perguntou o que falta para atravessar?
A coluna é minha, mas a conversa é nossa: comenta o que você pensa.
Fontes: Anuário Abrinq 2026 (balança comercial do setor, base Comex Stat/MDIC — exportação e importação brasileiras, 2018 e 2025). Governo da Índia / Press Information Bureau, julho de 2026 (exportações indianas de brinquedos e jogos, HS 9503, 9504 e 9505, 2017-18 e 2025-26; saldo comercial do setor). Acordo Índia–Reino Unido (CETA) em vigor desde 15/07/2026. Lei nº 15.359/2026, sancionada em 24/03/2026 (Sistema Brasileiro de Apoio Oficial ao Crédito à Exportação).
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O primeiro podcast brasileiro dedicado ao mercado de brinquedos. Conversas com quem faz a indústria do brincar acontecer no Brasil. Márcio Goldoni é publicitário com mais de 25 anos no mercado de brinquedos e criador do Toys PodCast — o primeiro podcast brasileiro dedicado ao setor. Ouça em www.ToysPodCast.com.br, YouTube, Spotify, Instagram, LinkedIn, Facebook e TikTok.
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