
BRINQUEDEIROS
Mercado, indústria e cultura do brincar — por Márcio Goldoni
O brinquedo bateu na porta de Brasília
E aí, brinquedeiros e brinquedeiras…
Caiu na minha caixa essa semana um comunicado que vale mais que muita manchete: um “-60%” gigante, estampado em amarelo. E atrás do número, uma notícia das boas — o setor de brinquedos acaba de dar um passo grande dentro do Congresso Nacional.
O que foi feito
A Abrinq, a associação dos fabricantes, junto com a Abrin, a feira do setor, articulou e viu ser protocolado na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei Complementar 226/2026. O texto, de autoria do deputado Gilberto Nascimento, propõe uma redução de 60% nas alíquotas do IBS e da CBS — os dois tributos que passam a organizar a cobrança sobre o consumo no país com a reforma tributária.
Sessenta por cento. Não é um arredondamento simpático nem uma promessa de campanha. É o que está escrito, com todas as letras, num projeto que já tem número, autor e protocolo na Casa. O brinquedo brasileiro entrou na conversa que vai redesenhar quanto se paga de imposto neste país pelos próximos anos — e entrou pela porta da frente, com pauta própria e proposta na mão.
Por que isso é grande
Quem vive do brinquedo sabe o tamanho do aperto. De um lado, o custo dos insumos que não para de subir. Do outro, o importado que chega a preço de banana e disputa a mesma prateleira. No meio, o fabricante nacional segurando margem com unha e dente, fazendo conta de padeiro pra manter o produto competitivo sem sacrificar a qualidade que o mercado brasileiro aprendeu a exigir.
Um alívio tributário dessa ordem não é detalhe de planilha. É oxigênio para uma indústria que emprega, que move cidades inteiras, que sustenta cadeias de fornecedores e que carrega o brincar de gerações de crianças brasileiras. Cada ponto percentual de imposto a menos é fôlego que volta pra dentro da fábrica — em investimento, em emprego, em preço mais justo na ponta.
O brinquedo brasileiro parou de esperar convite. Bateu na porta de Brasília e entrou com a cara e a coragem.
E é bom que se diga: esse tipo de resultado não nasce sozinho. Nasce de articulação, de gente batendo em porta, sentando em reunião, construindo relação onde a decisão de fato acontece. É um trabalho de bastidor, que não aparece na vitrine, que raramente vira manchete, e que dessa vez rendeu algo concreto o bastante para virar projeto de lei protocolado. O setor foi lá e fez.
Vale dimensionar o que está em jogo. O brinquedo brasileiro não é figurante da economia: é uma indústria que abastece o país inteiro, que resiste à concorrência asiática há décadas e que tem em polos como o nosso, aqui no interior paulista, alguns dos maiores centros produtores do mundo. Quando uma pauta desse setor chega a Brasília com proposta concreta, não é lobby de ocasião — é uma cadeia produtiva inteira pedindo condição de competir em pé de igualdade. E pedindo do jeito certo: com projeto, com número, com base técnica.
O recado
Fica a lição, e ela vale para além do imposto. Ver a pauta do brinquedo chegar a Brasília, com peso e com número, é sinal de uma indústria que amadureceu — que entendeu que o jogo não se ganha só na qualidade do produto ou na criatividade do lançamento, mas também na mesa onde as regras são escritas. Produto bom, o brinquedo brasileiro sempre teve, e ninguém precisa provar isso a esta altura. O que se prova agora é outra coisa: que o setor sabe defender esse produto no lugar certo, na hora certa, com o instrumento certo.
O “-60%” ainda tem caminho pela frente — todo projeto tem, e ninguém aqui vai vender ilusão de que lei se aprova da noite pro dia. Mas o passo que importava, o de estar presente onde a decisão se toma, esse já foi dado. E foi dado bem, com a lição de casa feita e a proposta na mesa.
Quem quiser entender a fundo cada detalhe do que está em jogo, o texto do projeto está público, na Câmara dos Deputados, à disposição de quem tiver o apetite de mergulhar. Eu fico com o que ele já significa hoje: o brinquedo brasileiro parou de esperar convite. Bateu na porta de Brasília e entrou com a cara e a coragem. O resto dessa história a gente acompanha juntos — e, pode confiar, eu conto por aqui.
Fontes: Projeto de Lei Complementar nº 226/2026 (Câmara dos Deputados, apresentação em 21/07/2026); Lei Complementar nº 214/2025.
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Marcio Goldoni é publicitário com mais de 25 anos no mercado de brinquedos e criador do Toys PodCast — o primeiro podcast brasileiro dedicado ao setor. Ouça em www.ToysPodCast.com.br, YouTube, Spotify, Instagram, LinkedIn, Facebook e TikTok. Contato: WhatsApp (15) 98114-0035 | toysnews@toyspodcast.com.br