
Todo mundo comprou a mesma ousadia
O que as chuteiras rosa da Copa ensinam sobre a prateleira de brinquedos no Brasil
E aí, brinquedeiros e brinquedeiras…
Tem uma frase que circula em qualquer mesa de reunião deste mercado. Ela aparece no briefing do produto, na pauta da embalagem, no pedido do site novo: “faz igual ao do fulano”. Quem trabalha no setor já ouviu. Ou já disse. É o briefing mais curto do mundo — e o mais caro, embora a fatura demore a chegar.
Nesta Copa do Mundo, ela apareceu em escala global. Nos pés dos jogadores.
Se você assistiu a qualquer jogo, reparou: as chuteiras estão rosas. Nike, Adidas, Puma, New Balance — as maiores fornecedoras de material esportivo do planeta lançaram, cada uma por conta própria, chuteiras rosa-choque para o Mundial. Num jogo da Coreia do Sul, os dez jogadores de linha titulares entraram em campo de rosa. Dez.
A justificativa de cada marca é impecável. Estudos encomendados pelas próprias marcas mostram que o rosa se destaca sobre o gramado verde mais do que a maioria das cores. Nenhuma das 48 seleções usa o rosa como cor predominante no uniforme, então a chuteira não se confunde com camisa nem meião. E a WGSN, referência global em previsão de tendências, já apontava em 2024 que o fúcsia seria uma das cores do verão de 2026. Cada marca fez a lição de casa direitinho.
O problema é que todas fizeram a mesma lição de casa. Um executivo da Puma admitiu à imprensa que a coincidência foi obra do acaso — ninguém combinou nada. Não precisava combinar. Quando todas as marcas assinam o mesmo trend forecasting, encomendam os mesmos estudos de visibilidade e ouvem os mesmos atletas, todas chegam à mesma resposta. Ninguém disse “faz igual ao do fulano” — mas o resultado foi idêntico ao de quem disse. A ousadia que era pra diferenciar virou uniforme. E quem se destacou em campo foi justamente quem não seguiu o relatório.
Agora olha pra prateleira de brinquedos no Brasil.
A indústria nacional vive um momento de aversão ao risco. Projeto novo assusta. Molde novo é investimento que ninguém quer assinar sozinho. Então o caminho seguro é o mesmo para todos: pegar a licença do momento, entrar na categoria que o concorrente validou, seguir o relatório de tendência que todo mundo recebeu. O “faz igual ao do fulano” nem sempre é dito em voz alta — às vezes ele está embutido no processo, disfarçado de benchmark, de “referência de mercado”, de “o que está performando”. O resultado está exposto em qualquer loja: fileiras de produtos que poderiam trocar de embalagem entre si sem que ninguém percebesse. Cada lançamento, individualmente, é uma decisão racional. O conjunto é uma prateleira sem autor.
E tem um efeito colateral que o setor conhece bem: quando o portfólio inteiro depende da licença do momento, quem manda na margem é o licenciador — e quem manda no calendário é o estúdio. O royalty sobe, a janela do filme fecha, o personagem sai de moda, e a fábrica descobre que construiu faturamento sem construir marca. Alugou relevância. E aluguel, como todo lojista sabe, vence todo mês.
É o mesmo mecanismo das chuteiras: diferenciação terceirizada. Quando a estratégia de todos vem da mesma fonte, ela deixa de ser estratégia — vira taxa de entrada. E tem um custo que não aparece no fluxo de caixa do trimestre: prateleira igual não constrói memória. O diferente não grita — ele é o único que a gente lembra. Pense nos brinquedos que atravessaram gerações e ainda são citados pelo nome, cinquenta anos depois. Nenhum deles nasceu de relatório de tendência que todo mundo recebeu. Nasceram de alguém disposto a assinar um projeto e sustentar a aposta. Isso não é saudade: é o dado de que produto com autoria sobrevive ao ciclo, e produto de esteira não.
O risco que a indústria acha que está evitando ao não criar é menor do que o risco que está assumindo ao ficar igual. Porque na prateleira comoditizada, a disputa desce para o único diferencial que sobra: preço. E nessa briga, a fábrica brasileira nunca vai ganhar de quem produz em escala asiática. O contêiner chega mais barato do que o molde sai da ferramentaria — e essa conta não fecha nunca, por mais eficiente que a operação seja.
A pergunta que fica: da próxima vez que o “faz igual ao do fulano” aparecer na sua mesa — dito ou disfarçado — o que exatamente vai ser seu no que sai dela?
“Cada lançamento, individualmente, é uma decisão racional. O conjunto é uma prateleira sem autor.”
Até a próxima, brinquedeiros e brinquedeiras.
Fontes: IBGE — Estatísticas do Registro Civil 2024 (nascimentos); Circana — balanço global do setor de brinquedos 2025, divulgado em jan/2026 (consumidor kidult e mercados G12).
🎙️ Toys PodCast
O primeiro podcast brasileiro dedicado ao mercado de brinquedos. Conversas com quem faz a indústria do brincar acontecer no Brasil.
Marcio Goldoni é publicitário com mais de 25 anos no mercado de brinquedos e criador do Toys PodCast — o primeiro podcast brasileiro dedicado ao setor. Ouça em www.ToysPodCast.com.br, YouTube, Spotify, Instagram, LinkedIn, Facebook e TikTok. Contato: WhatsApp (15) 98114-0035 | toysnews@toyspodcast.com.br