O número que o setor não sabe dizer de cabeça: R$ 10,39 bilhões

E aí, brinquedeiros e brinquedeiras… na coluna passada eu fechei com uma provocação: o +2% que separou o Brasil do resto do G12 mede velocidade, não tamanho. Hoje a gente resolve a outra metade da conta. Quanto vale, de fato, o mercado brasileiro de brinquedos?

A resposta chegou com o Anuário Abrinq 2026, divulgado em fevereiro: o setor fechou 2025 em R$ 10,39 bilhões de faturamento, somando produção nacional e importação para o varejo. É crescimento de 1,86% sobre 2024 — porcentual modesto, é verdade, mas sobre uma base que não para de crescer desde 2020, quando rompeu a barreira dos R$ 7,5 bilhões.

Vale parar num detalhe que costuma passar batido: em dezembro de 2025, antes do ano fechar, a própria Abrinq projetava que o setor “deveria movimentar mais de R$ 11 bilhões”. O resultado fechado veio abaixo — cerca de R$ 600 milhões a menos que o projetado. Isso não é a entidade errando feio; é o normal de projetar um setor inteiro com meses de antecedência, num ano de juros altos e cenário cambial instável, com calendário de consumo concentrado em poucas semanas do ano e câmbio que pode mudar o preço de uma boneca importada de uma encomenda pra outra.

O que importa é o que sobra depois do ajuste de expectativa: mesmo R$ 600 milhões abaixo do esperado, é o maior faturamento da história do setor de brinquedos no Brasil. Quem só olhasse a manchete “ficou abaixo da projeção” perderia o fato mais relevante — que o piso desse mercado subiu de novo — quinto ano consecutivo de crescimento desde a virada de 2020. Errar a projeção por pouco mais de 5% é ruído estatístico normal em qualquer setor de bens de consumo; o que não é ruído é a trajetória de fundo, que segue subindo independente de o ano fechar um pouco acima ou um pouco abaixo do que se esperava em dezembro.

Esse é o ponto que merece virar princípio: crescer devagar sobre base grande não é não ter base. O +2% da coluna passada e o 1,86% de agora são, na verdade, a mesma história contada duas vezes — um setor que já é grande, gerando os mesmos R$ 10 bi e quebrando recorde mesmo desacelerando. Isso não anula o que esta coluna já registrou sobre fragilidades pontuais — a Estrela e a Xalingo, duas marcas quase centenárias do setor, seguem em recuperação judicial, cada uma respondendo a sua própria estrutura de dívida e de mercado. Tamanho de mercado e saúde de empresa individual são métricas diferentes; o setor pode bater recorde de faturamento agregado no mesmo ano em que nomes tradicionais da indústria enfrentam reestruturação financeira severa, e essa convivência não é contradição — é como mercado consolidado, com peso histórico grande, costuma funcionar.

Comparar com a expectativa de R$ 11 bi é útil exatamente para isso: mostra que mesmo quem vive o setor todos os dias mira alto e às vezes erra a mão — não porque o mercado é frágil, mas porque mercado grande de bens de consumo no Brasil sempre vai brigar com dólar, juro e calendário fiscal de quem decide comprar brinquedo em outubro ou em dezembro. Setor frágil não erra projeção pra cima; erra pra baixo justamente porque não tem fôlego para sustentar a expectativa que ele mesmo criou. Aqui o erro foi de margem, não de direção.

Tamanho também aparece em outro número que costuma ficar invisível: 43.946 pessoas empregadas diretamente pela indústria em 2025, entre próprios e terceirizados — maior contingente da série histórica, mesmo vindo de uma leve queda frente a 2024. R$ 10 bi não é só faturamento de balanço; é também a métrica de quantas famílias o setor sustenta.

Para Laranjal Paulista e para quem trabalha dentro da cadeia, o exercício prático é simples: pare de pensar em “o brinquedo cresceu X% esse ano” como medida única de saúde do setor. Percentual de variação anual é a métrica que cabe numa manchete; tamanho absoluto é a métrica que sustenta decisão de longo prazo — contratação, investimento em linha de produção, planejamento de capacidade de fábrica. R$ 10 bi é o piso sobre o qual qualquer variação percentual — boa ou ruim — vai operar dali pra frente. É essa base que sustenta fábrica, emprego e a posição de São Paulo como o centro produtivo do setor no país, e é essa base que faz a diferença entre um setor cíclico e um setor estrutural da economia brasileira.

A próxima parada na BRINQUEDEIROS muda de escala: da macroeconomia do setor para o detalhe que decide a compra na gôndola. Embalagem vende — ou afasta — antes de qualquer brinquedo ser tocado. Semana que vem, a anatomia de uma embalagem que vende.

Fontes: Abrinq — Anuário Estatístico 2026 (faturamento, emprego, lançamentos); Abrin/Francal — “Mercado de Brinquedos no Brasil” (10/12/2025, projeção pré-fechamento).

 

Marcio Goldoni é publicitário com mais de 25 anos no mercado de brinquedos e criador do Toys PodCast — o primeiro podcast brasileiro dedicado ao setor. Ouça em www.ToysPodCast.com.br, YouTube, Spotify, Instagram, LinkedIn, Facebook e TikTok. Contato: WhatsApp (15) 98114-0035 | toysnews@toyspodcast.com.br