Quando uma marca de quase 90 anos pede recuperação judicial, o assunto não é uma empresa. É um modelo.

E aí, brinquedeiros e brinquedeiras…

Aqui de Laranjal Paulista, onde mais de trinta fábricas vivem do brinquedo e fazem desta cidade do interior um dos maiores polos produtores do mundo, a notícia desta semana chegou com peso. A Estrela — sim, a do Autorama, do Banco Imobiliário, do Falcon, da boneca Susi — entrou com pedido de recuperação judicial. E quando uma marca de quase noventa anos pede recuperação, não dá pra tratar o assunto como página de balanço. É hora de olhar pro que isso diz sobre o setor inteiro — o nosso aqui de Laranjal inclusive.

Primeiro, o fato, sem floreio. Em fato relevante enviado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) nesta quarta-feira (20), a Estrela informou que protocolou pedido de recuperação judicial na comarca de Três Pontas, em Minas Gerais, envolvendo outras empresas do grupo. A companhia atribuiu a decisão à necessidade de reorganizar o passivo diante de pressões econômicas e setoriais, citando custo de capital mais alto, restrição de crédito e mudança no comportamento de consumo. E afirmou que mantém operação, empregos e atendimento a clientes e fornecedores durante o processo.

A leitura fácil já está rolando por aí: “o digital matou mais uma.” Resisto a ela, e te explico por quê. Recuperação judicial, antes de tudo, não é falência — é uma ferramenta pra renegociar dívida e continuar operando. E a Estrela, de digital, entende: vinha vendendo forte nos marketplaces e apostando justamente nos kidults, os adultos que voltam a comprar o brinquedo da própria infância. Quem está dentro do jogo digital não quebra por causa dele.

O que aconteceu é mais incômodo — e mais útil de entender. Sete meses atrás, a Estrela tinha acabado de fechar um acordo com a Procuradoria-Geral da Fazenda que derrubou uma dívida federal de quase R$ 748 milhões para algo em torno de R$ 72 milhões. Ou seja: o passivo tributário velho, que assombrava a empresa há anos, tinha acabado de ser equacionado. O que apertou foi o caixa de agora. No balanço de 2024, segundo a imprensa econômica, a companhia teve prejuízo em parte por não conseguir montar o terceiro turno de produção antes do Natal — a estação que concentra a maior fatia da receita do setor. Traduzindo: uma indústria sazonal que, num país de juro alto e crédito caro, não conseguiu financiar a própria alta temporada.

É aqui que a coisa vira espelho, não obituário de concorrente. Porque essa equação — produzir o ano inteiro pra vender concentrado no fim do ano, dependendo de crédito pra bancar o pico — é a mesma de toda fábrica de Laranjal. A Estrela é listada em bolsa, tem nome que atravessa gerações. Mas a doença que ela está tratando não é exclusividade dela. É a vulnerabilidade estrutural de uma indústria construída pra um mercado interno cada vez mais disputado, com pouca gordura de exportação pra equilibrar quando o vento muda dentro de casa.

Faço questão de não transformar dificuldade alheia em lição barata. Não vou dizer que “avisei”, nem fingir que sei como essa história termina — não sei, e ninguém sério sabe. O que sei é que a Estrela já apanhou antes. Nos anos 1990, beirou o fim, com estoque encalhado e dívida, e foi reerguida. Marca de quase um século carrega cicatriz, não certidão de óbito.

E carrega outra coisa que balanço nenhum mede: memória. Quem aqui não montou pista de Autorama no chão da sala, não brigou por uma cartela do Banco Imobiliário, não teve um Falcon ou uma Susi? Isso é patrimônio afetivo de um país inteiro. É a prova, de novo, de que brinquedo nunca foi bobagem — porque o que está sob pressão financeira é, ao mesmo tempo, indústria, emprego e a infância de milhões de brasileiros.

Fica o aviso, então, pra quem produz, pra quem vende e pra quem faz política pública: o problema não é uma marca. É um modelo que precisa aprender a se financiar melhor e a depender menos de um só mercado.

E é pra esse “só mercado” que a coluna vai olhar na semana que vem: o que o brinquedo brasileiro vende lá fora, pra quem, e o que esses destinos dizem sobre o que a gente decidiu — e o que decidiu não — produzir aqui dentro.

Fontes

Toys PodCast — o primeiro podcast brasileiro dedicado ao mercado de brinquedos. Conversas com quem faz a indústria do brincar acontecer. 🎧 YouTube · Spotify · Instagram · LinkedIn · Facebook · TikTok

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