
MERCOSUL BRINQUEDEIRO: O BRASIL AINDA EXPORTA POUCO DEMAIS
E aí, brinquedeiros e brinquedeiras…
O mercado mundial de brinquedos movimentou US$ 110,6 bilhões em 2025. O Brasil exportou US$ 10,3 milhões no mesmo período. Essa é a fotografia do nosso lugar no mapa internacional do setor, segundo o Anuário Abrinq 2026 divulgado pelo Times Brasil/CNBC.
Laranjal Paulista é Capital dos Brinquedos do Estado de São Paulo por lei. Tem fábrica, tem ferramentaria, tem cadeia produtiva, tem feira forte, tem varejo ativo, tem gente que respira brinquedo há décadas. E mesmo assim, o brinquedo brasileiro aparece pequeno demais no mapa global.
A pergunta que o setor costuma evitar é essa: se temos tudo isso, por que exportamos tão pouco?
Olhando os números internos, a indústria fechou 2025 com faturamento de R$ 10,39 bilhões, quase 44 mil trabalhadores empregados e 1.689 lançamentos. Para 2026, a projeção é de 1.740. Há atividade, há renovação, há capacidade industrial. O que falta é direção para fora.
Quando o Brasil exporta, exporta para perto. Em 2025, Paraguai e Argentina juntos absorveram cerca de 61% dos embarques de brinquedos. O Paraguai com 44,2%. A Argentina com 17,3%. Mercado regional é importante, é estratégico, e deve continuar no radar. Mas não pode ser teto. Concentrar mais da metade da exportação em dois vizinhos significa que basta uma crise cambial, uma mudança tributária ou uma queda de consumo em qualquer um deles para a balança sentir o golpe na semana seguinte.
A Abrinq cita a aprovação de um novo sistema brasileiro de apoio oficial ao crédito à exportação como avanço relevante. É. Mas crédito é resposta para um problema que não é o principal. O gargalo real do brinquedo brasileiro lá fora chama-se custo Brasil.
Carga tributária pesada incidindo sobre matéria-prima, energia, frete e folha. Juros que encarecem capital de giro e investimento em ferramentaria. Burocracia aduaneira que come prazo. Câmbio que oscila sem previsibilidade. Cadeia logística cara para chegar ao porto. Quando o fabricante brasileiro coloca o produto no contêiner com tudo isso embutido no preço, ele chega no destino competindo de igual para igual com quem tem metade do custo industrial. Não é falta de qualidade. Não é falta de criatividade. É matemática.
E isso explica por que o setor olha tanto para o Mercosul. Para o vizinho, o custo Brasil ainda cabe na conta porque a logística é curta, a relação comercial é conhecida e a margem aperta menos. Para a Europa, Estados Unidos ou Ásia, o mesmo produto sai do porto já perdendo a disputa.
O brinquedo brasileiro tem criatividade, tem ferramentaria, tem capacidade produtiva. Compete com países que têm escala maior, financiamento mais agressivo e cadeias integradas. Mas a primeira batalha não é de mercado. É de estrutura. Enquanto o custo Brasil não for tratado como pauta industrial séria, com reforma tributária real chegando no chão de fábrica, desoneração de exportação que funcione na prática e infraestrutura logística que reduza atrito, qualquer linha de crédito vira analgésico em paciente que precisa de cirurgia.
Laranjal sabe produzir. O setor sabe produzir. O que precisa mudar está acima da indústria — e exige que a indústria, organizada, cobre essa mudança de quem decide.
Fontes consultadas: Anuário Abrinq 2026; Times Brasil/CNBC (08/03/2026); Lei Estadual nº 17.474/2021. Apuração própria do colunista.
Marcio Goldoni é publicitário com mais de 25 anos no mercado de brinquedos e criador do Toys PodCast — o primeiro podcast brasileiro dedicado ao setor. Ouça em www.ToysPodCast.com.br, YouTube, Spotify, Instagram, LinkedIn, Facebook e TikTok. Contato: WhatsApp (15) 98114-0035 | toysnews@toyspodcast.com.br