
BRINQUEDEIROS • Coluna #002 • 05/2026 • por Marcio Goldoni
Abrin 2026: o que São Paulo mostrou ao mundo do brinquedo
E aí, brinquedeiros e brinquedeiras… A 42ª edição da Abrin terminou no começo de março e o Post-Show Report oficial, divulgado pela Francal Feiras, caiu na minha mesa essa semana. Antes de qualquer leitura de mercado, um registro que só faz sentido quando se escreve a partir daqui: 14 indústrias de Laranjal Paulista estiveram expondo no Expo Center Norte. Quando o setor inteiro se reúne em São Paulo durante quatro dias, uma fatia considerável do que está exposto saiu daqui, da cidade reconhecida pela Lei Estadual 17.474/2021 como “Capital Estadual dos Brinquedos” e apontada por entidades do setor como um dos maiores polos produtores do mundo. Isso muda como a gente lê o que aconteceu.
A feira fechou com 174 expositores, 268 marcas, 20.001 visitantes (alta de 4,2% sobre 2025), 5.128 novos CNPJs entrando pela primeira vez e visitantes de 38 países, dos cinco continentes. Vale registrar uma característica importante: a Abrin é uma feira da indústria brasileira, com regras que restringem expositores estrangeiros. O que ela tem de internacional é o alcance da visitação — não a origem do que está no piso. E essa é, em si, uma vitória nacional pouco comemorada.
Segundo a Abrin, no release oficial de abertura, foram mais de 1.500 lançamentos inéditos apresentados durante os quatro dias, distribuídos em uma composição que equilibra 64% de produtos próprios da indústria nacional contra 36% de licenciados de marcas globais — proporção divulgada com base no Anuário Abrinq 2026, da Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos. Diga-se com orgulho local: muito desse 64% nasce nas linhas de produção daqui antes de ganhar o catálogo do varejo.
A qualificação do público é o que separa a Abrin de qualquer outra feira do varejo brasileiro. 68% dos visitantes ocupam cargos de gestão. 43% são donos ou presidentes, 11% diretores, 14% gerentes. 62% têm decisão final de compra; somando os 22% que recomendam, são 84% que interferem diretamente na formação do pedido. Os índices de satisfação reforçam: o CSAT (Customer Satisfaction Score, índice de satisfação do cliente) bateu 98,7% entre visitantes, o NPS (Net Promoter Score, indicador de lealdade) marcou 86. Do lado dos expositores, NPS 90 e — o número que importa de verdade — 92% deles realizaram negócios durante a feira. A Abrin 2026 não foi vitrine. Foi pista de pouso comercial.
Agora a parte que me parou. Entre as atividades exercidas pelos visitantes, dois números aparecem quase colados: Loja de Brinquedos com 21,1% e E-commerce com 20,8%. Empate técnico. E essa proporção dentro da feira espelha o mercado real: segundo o Anuário Abrinq 2026, o e-commerce já responde por 38% das vendas totais de brinquedos no Brasil em 2025, contra 22% em 2017 — escalada de 73% em oito anos, no release que apresenta esses dados, a transformação digital do varejo é um dos desafios estruturais do setor. Tem razão. E eu acrescento, da minha cadeira de quem acompanha esse setor há mais de 25 anos:
“O comprador brasileiro de brinquedo agora compra com o polegar tanto quanto compra com a mão na prateleira.”
E aqui é preciso colocar uma camada que muitos preferem não enxergar. Esse avanço do digital é fato consumado para a indústria, mas é dor real para o lojista físico especializado — exatamente o profissional que a ALBB, Associação de Lojistas de Brinquedos do Brasil, representa publicamente. Não há saída fácil para essa equação, e fingir que não existe seria desonesto. O caminho passa por maturidade e profissionalismo de toda a cadeia: da indústria, que precisa adaptar comunicação e ficha de produto para o ambiente digital sem abandonar quem está na rua; do lojista, que precisa repensar a proposta de valor da loja física para além do simples acesso ao produto; e dos organizadores de feira, que precisam dar palco igual aos dois mundos. A Abrin de 2027 vai ser cobrada nesse ponto — e com razão.
Vale o paralelo internacional, porque a conexão é direta: a Spielwarenmesse 2026, em Nuremberg, aconteceu apenas um mês antes da Abrin com presença forte de profissionais brasileiros. Muitos voltaram para São Paulo já com as duas grandes tendências do TrendCommittee oficial na bagagem — “AI Loves (to) Play” (a inteligência artificial reformulando o brincar) e “Creative Mindfulness” (experiências criativas com atenção plena). Parte do que circulou nos estandes da Abrin já carregava essas referências.
Então é isso: a Abrin 2026 entregou a feira mais redonda dos últimos anos, e dentro dela um recado que poucos vão ler com a calma necessária. A próxima edição, marcada para 04 a 07 de abril de 2027, não vai esperar quem ainda achar que canal digital é fase passageira — nem quem achar que loja física não tem mais lugar nesse jogo. Daqui de Laranjal, o melhor que podemos fazer é chegar lá um ano mais bem preparados que o resto do Brasil. Como a gente sempre fez.
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