
BRINQUEDEIROS
Mercado, indústria e cultura do brincar — por Márcio Goldoni
A fábrica fecha o ano antes de a criança abrir o presente.
E aí, brinquedeiros e brinquedeiras…
Faltam pouco mais de trinta dias para o 12 de outubro. Para a criança, o ano mal começou a ficar interessante. Para boa parte das fábricas daqui, o ano já foi decidido há meses.
Dois calendários que quase não se encontram
Escrevi aqui na semana passada, falando de exportação, que ninguém nunca tinha dito às nossas fábricas o que era preciso para atravessar a fronteira. Antes de responder aquilo, vale virar a lente para dentro. Porque existe um calendário que já está inteiramente sob o nosso controle — e mesmo esse a gente costuma rodar no reflexo.
A Abrinq registra dois números que parecem o mesmo e não são. O primeiro: o segundo semestre, com Dia das Crianças e Natal, responde por mais de 60% das vendas do ano. Essa é a temporada de quem vende no balcão.
O segundo interessa a quem está no chão de fábrica. Mais da metade da sazonalidade se concentra em julho, agosto, setembro e outubro — e se concentra ali justamente para abastecer as lojas nas duas datas. Não é a criança comprando. É o caminhão saindo.
Quem já andou por um galpão daqui em setembro sabe o que isso quer dizer na prática. Injetora rodando sem parar, turno extra improvisado, expedição atropelando montagem, caixa empilhada até onde a altura do barracão deixa. E, do lado de fora, uma cidade que sente no bolso quando esse ritmo aperta ou afrouxa.
São dois calendários diferentes, defasados um do outro. O da fábrica termina mais ou menos quando o da criança começa.
Quando a decisão foi realmente tomada
Só que nenhum dos dois é o momento da decisão. A decisão aconteceu antes, na feira do primeiro semestre, quando o varejo passou o pedido. E quase ninguém trata feira com o peso que ela tem. Ali não se vende brinquedo: contrata-se um ano inteiro de produção, com meses de antecedência e com informação incompleta sobre o que a criança vai querer. De lá para cá o molde foi ajustado, a matéria-prima comprada, a licença contratada, o turno extra programado. Em julho já não há muito o que mudar.
Ou seja: o 12 de outubro não é quando a fábrica descobre se acertou. É quando ela confere um palpite dado meses antes — e dado com o comprador do varejo, não com a criança.
Isso não é defeito nosso. É como a cadeia funciona no mundo inteiro. Só que existe diferença entre operar dentro de uma cadeia e ser operado por ela.
A parte que é nossa
E aqui eu preciso dizer uma coisa com todas as letras: os polos do interior paulista, o nosso incluído, sabem entregar sob pressão como pouca gente neste país. Prazo apertado, turno dobrado, pedido que muda em cima da hora, caminhão que sai assim mesmo. Essa competência é real e é rara.
Só que ela é competência de execução. Antecipação é outra coisa.
Quem trata o pico como emergência anual a suportar, e não como ciclo a planejar, está apostando. Aposta que o comprador do varejo acertou. Aposta que o personagem ainda estará em alta em outubro. Aposta que a caixa que encheu o galpão em agosto sai antes do Natal.
Para fábrica pequena, essa aposta tem juro. O que sobra em novembro não custa só o encalhe. Come o capital do lançamento do ano seguinte — e o ano seguinte começa exatamente na feira, quando você precisa chegar com produto novo e chega com o galpão cheio do produto velho.
Quando o pai entra na loja em outubro, a fábrica já não pode mudar mais nada.
Não tenho fórmula elegante para oferecer aqui. Tenho uma pergunta chata, dessas que ninguém faz em setembro porque em setembro todo mundo está apagando incêndio: o que eu vou saber em janeiro que teria mudado o que eu decidi em março?
Quem senta e responde isso uma vez por ano para de ser fábrica que atende pedido e começa a ser fábrica que tem plano. Não custa máquina nova. Custa uma tarde e a disposição de olhar para o encalhe sem procurar culpado. Não é planilha complicada: é pôr lado a lado o que sobrou, o que faltou e o pedido que o comprador fez e você recusou — antes da próxima feira, não depois.
Falta pouco mais de um mês para o feriado. A criança vai escolher em outubro. A fábrica escolheu em março — e a gente chama isso de tradição.
A coluna é minha, mas a conversa é nossa: comenta o que você pensa.
Fontes: Abrinq — Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos: estatística anual e declarações da entidade divulgadas em 2025 sobre a sazonalidade das vendas do setor (mais de 60% das vendas do ano no segundo semestre, com Dia das Crianças e Natal; concentração de mais da metade da sazonalidade em julho, agosto, setembro e outubro, para abastecimento das lojas).
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O primeiro podcast brasileiro dedicado ao mercado de brinquedos. Conversas com quem faz a indústria do brincar acontecer no Brasil. Márcio Goldoni é publicitário com mais de 25 anos no mercado de brinquedos e criador do Toys PodCast — o primeiro podcast brasileiro dedicado ao setor. Ouça em www.ToysPodCast.com.br, YouTube, Spotify, Instagram, LinkedIn, Facebook e TikTok.
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