
BRINQUEDEIROS
Mercado, indústria e cultura do brincar — por Márcio Goldoni
O Brasil do brinquedo cabe em São Paulo?
O que o mapa da indústria revela sobre o custo invisível de fabricar longe de quem compra
Márcio Goldoni
E aí, brinquedeiros e brinquedeiras…
Duas semanas atrás, na coluna do kidult, fechei com uma provocação que ficou no ar: o mapa dessa indústria, aqui dentro, é bem menos espalhado do que parece. Na semana passada a Copa mandou a pauta, e a promessa ficou para hoje. Agora eu cumpro — com número, não com achismo.
O Anuário Abrinq 2026 traz um dado que devia estar pregado na parede de todo mundo que trabalha com brinquedo neste país: 85,58% das unidades industriais do setor estão em São Paulo. Não é maioria. É quase tudo. O Brasil que fabrica brinquedo praticamente cabe num estado só. Os outros vinte e seis dividem os pouco mais de 14% que sobram.
Quando eu digo que o mapa é menos espalhado do que parece, é disso que estou falando. A gente imagina uma indústria nacional pulverizada, com polos fortes espalhados de norte a sul. A realidade é uma concentração que, em qualquer outro setor, viraria manchete.
Mas o número sozinho não conta a história inteira. O mesmo Anuário mostra o outro lado: São Paulo responde por apenas 34,9% do consumo nacional de brinquedos. Leia de novo. O estado fabrica quase 86% e consome menos de 35%. Quem produz e quem compra não moram no mesmo lugar.
Esse descasamento é a chave de tudo. A indústria está concentrada num ponto do mapa, e o brinquedo precisa viajar para chegar na criança que vai brincar com ele. Cada quilômetro entre a fábrica e a prateleira é frete, é prazo, é margem. O lojista do Nordeste, do Centro-Oeste, do Norte, paga essa distância — mesmo quando não vê a conta detalhada. Ela vem embutida no preço e no tempo que ele espera para repor um item que estourou de vender.
“O estado fabrica quase 86% e consome menos de 35%. Quem produz e quem compra não moram no mesmo lugar.”
E aqui entra uma parte da história que eu conheço de perto, porque moro nela. Boa fatia dessa concentração não está na capital: está no interior paulista. Cidades médias que, ao longo de décadas, viraram verdadeiros polos de fabricação, com ferramentarias, injeção de plástico e uma cadeia inteira de fornecedores que cresceu junto. Não vou citar fábrica nenhuma — o mérito aqui é do fenômeno, não de um nome. Mas quem é do setor sabe: quando se fala em produção nacional de brinquedo, uma parte relevante do país está sendo movimentada em galpões do interior de São Paulo.
Isso tem um lado bom e um lado que exige atenção. O lado bom é a competência acumulada: conhecimento técnico, mão de obra especializada, uma vocação industrial que não se improvisa. O lado que exige atenção é a fragilidade da concentração. Quando tanta coisa depende de uma mesma região, qualquer solavanco — custo de energia, tributação estadual, logística — reverbera no país inteiro. Diversificação geográfica, nesse cenário, deixa de ser detalhe e vira seguro.
Agora, para não cair na armadilha de achar que São Paulo domina tudo, vale olhar a outra ponta do mapa. Na importação, quem lidera não é São Paulo: é Santa Catarina, com 50,12% de todo o volume de brinquedos desembarcado no Brasil. Ou seja, o mapa da produção nacional é concentradíssimo em SP, mas o mapa do que entra de fora tem outro dono. São duas geografias diferentes convivendo no mesmo mercado: a do que se fabrica aqui e a do que chega de contêiner.
Para o lojista, entender essas duas geografias não é curiosidade — é estratégia. Saber de onde vem o produto nacional, de onde entra o importado e como essas rotas afetam prazo e preço é o tipo de conhecimento que separa quem compra bem de quem só compra. A concentração da indústria em São Paulo é uma vantagem para quem está no eixo e um desafio logístico para quem está longe dele.
O que esse mapa ensina é simples e desconfortável ao mesmo tempo: o brinquedo brasileiro nasce muito concentrado e precisa se espalhar por um país continental para cumprir seu papel. A distância entre a ferramentaria e a criança é o verdadeiro custo invisível do setor.
E se a produção está tão concentrada num lugar, uma pergunta incomoda: o que acontece com uma indústria que fabrica pertinho de quem tem dinheiro e longe de quem tem gente? Guardo essa para a próxima — porque falar de onde o brinquedo é feito é só metade da conversa. A outra metade é sobre para quem ele está sendo feito.
Fontes: Anuário Abrinq 2026 — concentração industrial, consumo e importações de brinquedos por estado.
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O primeiro podcast brasileiro dedicado ao mercado de brinquedos. Conversas com quem faz a indústria do brincar acontecer no Brasil.
Marcio Goldoni é publicitário com mais de 25 anos no mercado de brinquedos e criador do Toys PodCast — o primeiro podcast brasileiro dedicado ao setor. Ouça em www.ToysPodCast.com.br, YouTube, Spotify, Instagram, LinkedIn, Facebook e TikTok. Contato: WhatsApp (15) 98114-0035 | toysnews@toyspodcast.com.br